27/05/934 - Brasil 1 x 3 Espanha (Copa do Mundo de 1934)
Espanha vence o Brasil, em Gênova e elimina a seleção brasileira da Copa do Mundo
Gênova, 28 de maio de 1934 — Em partida disputada ontem à tarde no Estádio Luigi Ferraris, perante cerca de 21 mil espectadores, a seleção espanhola derrotou o Brasil pelo placar de 3 a 1 e classificou-se para as quartas de final da Copa do Mundo de Futebol, organizada pela FIFA na Itália. O encontro, válido pelas oitavas de final (fase preliminar eliminatória), confirmou o domínio europeu no primeiro tempo e a reação incompleta dos sul-americanos após o intervalo. Os gols espanhóis foram marcados por José Iraragorri (aos 18 minutos, de pênalti, e aos 25) e Isidro Lángara (aos 29). Leônidas da Silva descontou para o Brasil aos 55 minutos.
A partida teve início às 16h30, sob arbitragem do alemão Alfred Birlem, auxiliado por Ettore Carminati (Itália) e Mihály Iváncsics (Hungria). A Espanha, comandada pelo técnico Amadeo García, apresentou-se com a seguinte formação: Ricardo Zamora (goleiro e capitão); Ciriaco e Quincoces; Cilaurren, Muguerza e Marculeta; Lafuente, Iraragorri, Lángara, Lecue e Gorostiza. O Brasil, dirigido por Luiz Vinhaes, entrou em campo com Roberto Gomes Pedrosa no gol; Sylvio Hoffmann e Luiz Luz na defesa; Tinoco, Martim (capitão) e Canalli no meio; e o ataque composto por Luisinho, Waldemar de Brito, Armandinho, Leônidas e Patesko.
Desde os primeiros minutos ficou evidente a superioridade técnica e a organização tática dos espanhóis. A linha de ataque, liderada pelo centroavante Lángara e apoiada pelas investidas de Gorostiza e Iraragorri, pressionou a defesa brasileira de forma constante. O goleiro Pedrosa, ainda jovem, teve trabalho intenso. Aos 18 minutos, após falta cometida na área por Sylvio Hoffmann, o árbitro marcou pênalti. Iraragorri cobrou com segurança e abriu o placar: 1 a 0 para a Espanha. Foi o primeiro gol espanhol em Copas do Mundo.
A vantagem não demorou a ser ampliada. Aos 25 minutos, nova combinação pela direita resultou no segundo gol, novamente de Iraragorri. Quatro minutos depois, aos 29, Lángara aproveitou falha na saída de bola de Pedrosa e marcou o terceiro. O primeiro tempo encerrou-se com 3 a 0, resultado que refletia o domínio quase absoluto da equipe espanhola. A defesa comandada por Quincoces e Ciriaco manteve a organização, enquanto Zamora quase não foi acionado com perigo real.
No intervalo, o técnico Luiz Vinhaes certamente orientou maior ofensividade. O Brasil voltou ao gramado com disposição diferente. A linha de ataque, especialmente Leônidas e Waldemar de Brito, passou a aparecer com mais frequência. Aos 55 minutos, após chute de Patesko defendido parcialmente por Zamora, Leônidas aproveitou o rebote e marcou o gol de honra brasileiro. O estádio, que até então acompanhava a partida com relativa calma, reagiu à reação sul-americana.
A partir daí o Brasil buscou o empate com mais intensidade. Houve momentos de pressão e reclamações. Um lance de Luisinho, que chegou a colocar a bola nas redes, foi anulado por impedimento, provocando protestos da bancada e dos jogadores brasileiros. Pouco depois, por volta dos 60 minutos, o árbitro assinalou pênalti a favor do Brasil, após choque na área envolvendo Waldemar de Brito e um defensor espanhol. A cobrança ficou a cargo do próprio Waldemar. Ricardo Zamora, o “Divino”, adivinhou o canto e defendeu a bola, extinguindo praticamente as esperanças de recuperação total. A defesa espanhola, a partir de então, fechou-se com eficiência e administrou a vantagem até o apito final.
O desempenho de Zamora foi um dos pontos altos da tarde. O goleiro espanhol, já consagrado, mostrou segurança nas saídas e nas defesas, especialmente no segundo tempo, quando o Brasil elevou o volume de jogo. Lángara confirmou sua reputação de finalizador, enquanto Iraragorri mostrou frieza nas duas ocasiões em que marcou. Do lado brasileiro, Leônidas destacou-se pela mobilidade e pelo gol, e Waldemar de Brito tentou conduzir as ações ofensivas, embora o pênalti perdido tenha pesado no resultado. A defesa, contudo, sofreu com a velocidade e a precisão dos ataques espanhóis no primeiro tempo.
A eliminação brasileira ocorre logo na estreia do torneio. Esta Copa do Mundo, ao contrário da edição de 1930, não contou com fase de grupos: todos os jogos são eliminatórios desde o início. O Brasil, que havia viajado da América do Sul em longa travessia marítima, enfrentou dificuldades internas de preparação e composição do elenco, com a ausência de alguns nomes importantes do futebol paulista devido a divergências entre as entidades dirigentes. A seleção que entrou em campo em Gênova contava com boa dose de jogadores ligados ao futebol carioca e alguns atletas de clubes do interior ou do Uruguai. Ainda assim, a expectativa era de melhor desempenho, dado o prestígio crescente do futebol brasileiro no continente.
A Espanha, por sua vez, chega às quartas de final com moral elevada. A equipe, que conta com vários jogadores de clubes como Athletic de Bilbao e Real Madrid (então sob a denominação da República), mostrou solidariedade e capacidade de aproveitar as oportunidades. O próximo adversário será conhecido após a conclusão das demais partidas da rodada. O público genovês acompanhou a disputa com interesse, embora a maioria torcesse pela equipe europeia. O ambiente no estádio foi de respeito mútuo, sem incidentes graves.
O resultado de 3 a 1, com o intervalo em 3 a 0, deixa claro que a diferença se estabeleceu nos primeiros trinta minutos. A reação brasileira no segundo tempo evitou uma derrota mais elástica e mostrou que o time ainda possui recursos ofensivos. No entanto, a frieza espanhola e a segurança de Zamora foram determinantes. A partida foi considerada uma das mais animadas do dia pelos observadores presentes, com destaque para as ações da linha de ataque de ambas as equipes.
Com a eliminação, a seleção brasileira encerra sua participação nesta segunda edição da Copa do Mundo. A experiência servirá, certamente, para futuras campanhas. A Espanha segue adiante e terá a oportunidade de medir forças contra adversários mais fortes nas fases seguintes. O futebol europeu, mais uma vez, mostrou sua força organizativa em competições internacionais.
A derrota, embora amarga para os brasileiros, não tira o mérito do esforço da equipe no segundo tempo. Leônidas, em especial, demonstrou potencial de se tornar um dos grandes nomes do futebol sul-americano. Do lado espanhol, a vitória consolida a imagem de um conjunto equilibrado e capaz de decidir partidas nos momentos decisivos. A Copa do Mundo de 1934 continua com as demais partidas das oitavas de final e, em breve, as quartas, mantendo o interesse do público italiano e dos aficionados internacionais que acompanham o torneio.
➯ Com esse resultado o Brasil foi eliminado do restante da Copa do Mundo;
➯ Ricardo Zamora defendeu um pênalti cobrado por Waldemar de Brito, aos 17'/2º tempo
➯ Uniforme do Brasil: Camisa Branca, Calção Azul e Meias Pretas;
➯ Uniforme da Espanha: Camisa Vermelha, Calção Azul-Marinho e Meias Pretas;
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